A contação de
histórias é uma atividade que encanta crianças e adultos, pois permite uma
viagem ao mundo da fantasia e da magia; incentiva a formação de leitores,
amplia a visão de mundo e resgata memórias da infância. Quem não se lembra da
querida Dona Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?
Chapeuzinho Vermelho, menina teimosa que contrariando as ordens da mãe
segue pelo caminho da floresta?
Ouvir
histórias e poder transportar-se para o reino do faz de conta, encontrar-se com
os personagens, entrar nos cenários onde as histórias acontecem perceber
detalhes, encantar-se pelo colorido das páginas dos livros, com as feições
delicadas ou grosseiras dos personagens, saber como estão vestidos e poder
trazê-los para o cotidiano, tudo isso pode e deve ser possível para todos os
públicos e não somente para as pessoas que enxergam. Também as pessoas com deficiência visual apreciam escutar
histórias e conhecer detalhes de figurino, cenário e objetos que, muitas vezes,
são utilizados durante a contação e que estão presentes nos livros de
histórias, sempre, ricamente ilustrados.
Para
isso, os contadores precisam transformar as imagens de suas histórias e todos
os outros recursos visuais que utilizam durante a contação em palavras.
Precisam conhecer a audiodescrição, um recurso de acessibilidade que amplia o
entendimento das pessoas com deficiência visual em eventos culturais (peças de
teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles,
espetáculos de dança), turísticos (passeios, visitas), esportivos (jogos,
lutas, competições), acadêmicos (palestras, seminários, congressos, aulas,
feiras de ciências, experimentos científicos, histórias) e outros, por meio de
informação sonora. Transforma o visual em verbal, abrindo possibilidades maiores
de acesso à cultura e à informação, contribuindo para a inclusão cultural,
social e escolar.
Na
contação de histórias, a audiodescrição permitirá que as pessoas com
deficiência visual construam imagens mentais, e que literalmente visualizem
todos os elementos que fazem parte da história. As ilustrações são impregnadas
de significados e traduzi-las em palavras completa o
próprio texto, traz mais cores e encantamento para a
história. Chamar a atenção de todos e não somente das pessoas com deficiência
visual, usando mais elementos descritivos durante a contação, certamente, será
um diferencial para quem participa da atividade.
Pessoas
sem deficiência que assistem a algum evento ou espetáculo com audiodescrição
afirmam que o recurso aumenta a compreensão, mostra e desvela detalhes que
passariam despercebidos. Pessoas com deficiência visual que perderam a visão
depois de adultos afirmam que a audiodescrição devolve o prazer de assistir a
espetáculos audiovisuais. E para aquelas que já nasceram cegas, o recurso abre
janelas e permite um conhecimento maior de mundo.
Para
os audiodescritores, a audiodescrição aumenta a fluência verbal, o senso de
observação, o repertório cultural, o acervo de palavras. Também os contadores,
muito poderão se beneficiar com práticas mais descritivas, pois, assim como os
audiodescritores, ampliarão seu repertório lingüístico e poderão pintar com
cores muito mais coloridas as suas histórias.
A
elaboração de um roteiro com a verbalização do visual ajuda a caracterizar
personagens, a buscar vocabulário, as palavras certas para descrever aquele
moço alto, de cabelos pretos ondulados, penteados para trás, vestindo casaco
longo cinza chumbo sobre camisa branca de gola pontuda, calça preta bem justa
com riscas douradas, e botas pretas até os joelhos. E buscar mais e mais
palavras para descrever cenários, cores e texturas, grama verdinha e árvores
frondosas; cavalos, camelos e dragões.
Em
espetáculos como peças de teatro, óperas, musicais, shows e outros, a
caracterização física de personagens, cenários, figurinos, movimentos,
expressões faciais, entrada e saída em cena e as próprias ações, tudo isso é
verbalizado em roteiros previamente elaborados e chega até a pessoa com
deficiência visual por meio de fones de ouvido. Para isso, são utilizados os
mesmos equipamentos da tradução simultânea: retransmissores e fones de ouvido.
O audiodescritor fica dentro de uma cabine, seguindo um roteiro previamente
elaborado, e as pessoas com deficiência visual na plateia com fones, o que não
interfere nem atrapalha outros espectadores, como acontece quando alguém fica
falando durante o espetáculo. Já em filmes, documentários, programas de TV,
comerciais, vídeo clipes, a trilha de audiodescrição poderá ser gravada e
mixada ao som original.
Na
contação de histórias, é possível contar com a presença de um audiodescritor
para traduzir todos os elementos visuais. Entretanto se o próprio contador,
ciente da necessidade de fazer chegar a sua arte também a outros públicos, ele
mesmo puder inserir a descrição para complementar a sua história, isso será
ainda mais rico e proveitoso. Dona Baratinha, com seu vestido amarelo de bolas
vermelhas, cabelos repartidos ao meio com cachinhos presos com fita vermelha,
perfumando-se diante da janela aberta, a espera de seu pretendente, ganhará
mais vida e habitará com muito mais força o imaginário de crianças com
deficiência visual e também das crianças que enxergam. Nos audiolivros de
histórias, a audiodescrição será essencial e transformará todas as imagens em
palavras. Não há como não usar o recurso e adiar o acesso ao mundo imagético
para tantos!!!
Convido,
portanto, os contadores a experimentarem a emoção de transformar o visual em
verbal, tornando suas histórias e sua maravilhosa arte acessíveis a crianças
e adultos com deficiência visual.
Claudia, realmente as pessoas com deficiência visual também precisam participar das
ResponderExcluirleituras de historias, pois através da história as pessoas podem entrar no mundo da imaginação e da fantasia e isso favorece a aprendizagem e abre caminhos pra várias áreas de conhecimento. Parabéns pelo texto.
Cláudia,
ExcluirVocê explicou muito bem o "porquê" de utilizar esse recurso as crianças com cegueira, assim como, os benefícios. Ficou faltando inserir em seu blog um “post” com a indicação do link e sua opinião e comentários acerca de possíveis usos pedagógicos da atividade escolhida. Abços, Marileth.
Ótima dica Cláudia, aguçar o imaginário do(a) aluno(a) é poder levá-lo a descobrir novos caminhos e possibilidades na construção do conhecimento. Abraços.
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